Crônica: 65 anos de Viradouro
Publicado por Departamento Cultural em 24 de junho de 2011
Resgatar o passado é preservar o futuro!
Quando se comemora um aniversário é mais que natural o sentimento de felicidade, de contentamento por ter amigos que celebrem conosco tal data. Melhor ainda é poder recordar com orgulho toda uma existência, valorizando o tempo que se soma a essa jornada. Isto, independente do aniversariante, é de fato a celebração da vida.
Neste dia 24 de junho, festejamos os 65 anos de existência da querida Unidos do Viradouro. Para seus torcedores, certamente é uma data já esperada no calendário anual de eventos. É dia de recordar os motivos que levaram Nelson Jangada a fundá-la, sua dedicação a ela... Reviver antigos desfiles - para quem teve a sorte de testemunhá-los – e tentar mostrar as razões, que nem sempre se consegue explicar, para o amor que ela desperta.
E se hoje este sentimento é vermelho e branco, nos seus primórdios foi azul e rosa. Há quem não saiba disso, nem que as tais cores foram inspiradas pela imagem de Nossa Senhora Auxiliadora, a santa rosa que deu origem ao nome do bairro. Ou que sua data de fundação foi propositadamente escolhida no dia de São João Batista, padroeiro da escola e da cidade de Niterói. Que o nome vem do local onde o bonde virava. Que suas cores foram trocadas pela dificuldade de se achar tecidos de bom padrão, após o fechamento da antiga fábrica Matarazzo. E que tal troca foi motivo de desligamento de alguns integrantes descontentes... Ah! Como é bom confirmar estes fatos com nossa Velha Guarda, com integrantes mais antigos da agremiação, ou com aqueles que a todo custo buscam reconstruir sua trajetória... Como é bom conhecer quem amamos!
Bom mesmo é se juntar numa conversa para recordar antigos desfiles, enredos e sambas que a fizeram 18 vezes campeã do carnaval de Niterói, ou não. Voltar a 1949 e enaltecer o primeiro título, Ararigboia – sim, se escrevia assim! Ouvir de nossos baluartes, estórias, causos, que poucos que entre nós estão, puderam presenciar. Saber que já estiveram trabalhando em diversas funções a fim de fazer valer o nosso samba. Foram integrantes da bateria, mestre- salas, passistas, secretários, administradores, carpinteiros, aderecistas, tesoureiros, empurradores. Foram, e continuam sendo Viradouro.
Perceber em seus sorrisos a memória mais doce e feliz de carnavais marcantes, de Carlos Gomes (1959), ao Último Baile Imperial (1963). Recordar um Rio São Francisco (1971), e Pleito de Vassalagem a Olorum (1974), é sentir a força já pulsante de nossa escola. Saber que na época do pentacampeonato (1980 a 1984), foi composto um de seus mais belos sambas, Amor em Tom Maior, e poder ouvi-los cantando, é ter motivo de sobra para se emocionar... Estar em uma conversa animada com a Velha Guarda, é saber como foi a primeira ida ao Rio de Janeiro, em 1965 e 1966, e tentar imaginar como foi atravessar a Baía da Guanabara, levando nosso carnaval em balsas para comemorar os 400 anos do Rio de Janeiro... Quantas não são as passagens... E que vontade de expô-las aqui, todas de uma vez.
Muitos poderão dizer que são apenas recordações, e que não há razão para viver de passado. Mas como não olhar para trás e se orgulhar de tais façanhas? Como não querer conhecer um pouco desta rica trajetória? Deixar pra lá? São 65 anos! E que ainda precisam ser resgatados para uma maior valorização da própria escola, para uma justificada revitalização de seu futuro.
E se os 18 títulos de campeã em Niterói tanto nos envaidece, temos que enaltecer as pessoas que elevaram nossa agremiação ao patamar de “grande”, respeitada e admirada pelo mundo do samba. Neste aspecto, além do já citado Nelson Jangada, não podemos esquecer do antigo presidente Albano; do Sr. Ito Machado, que fez de tudo na Viradouro, com participação fundamental na construção da quadra, e na batalha pela permanência no local onde até hoje ela se encontra, sem dúvida, um dos nossos maiores baluartes. Reverenciamos também o eterno presidente José Carlos Monassa Bessil, responsável direto pelo sucesso alcançado no carnaval do Rio de Janeiro, conduzindo a escola dos grupos de baixo até a elite do carnaval carioca, e tornando-a conhecida no Brasil e no mundo.
Neste período aconteceu a maior conquista: o cobiçado título de campeã do Grupo Especial, em 1997. Mas não vem apenas dele o prestígio e o reconhecimento adquirido pela Viradouro, tantos foram os momentos marcantes vividos na Sapucaí.
Ela levou toda a irreverência de Dercy Gonçalves, com seus seios à mostra em plena avenida; Ciganos fazendo festa e deixando todos abismados com tamanha beleza e requinte – sendo impossível dizer se a maior recordação foi do grande desfile ou do incêndio que possivelmente tenha lhe tirado uma consagração maior.
Trouxe uma rainha negra do Pantanal, exaltou o amor em suas formas sublimes, foi personagem de cinema quando recriou o mito de Orfeu. O espírito de Anita asseverou a garra da comunidade, que não se perdeu pelos sete pecados, e virando o mundo, foi só sorriso ao homenagear a grande Bibi Ferreira. Arquitetando outras folias, virou o jogo, arrepiou-se com a fé do povo paraense, e chegaram a pensar que tinha parado por aí...
“Mas quem pensou que a luz se apagou, se enganou”. “Ela voltou com mais garra e inspiração”, está em reconstrução, nova solidificação, renovando o amor e os seus amantes, lutando como sempre lutou, sem deixar para trás seus princípios, seu jeito peculiar de fazer carnaval, de valorizar seus pares e tentando abraçar cada vez mais sua comunidade.
Ela é a razão pela qual uma multidão sai por aí, vestindo vermelho e branco, e entoando seus versos em qualquer lugar do planeta. Quer avisar que continua de braços abertos, com muita vontade de despertar ainda mais emoção em todos que a tenham, de fato, no coração. Só pede que retribuam o carinho!
Artigo dedicado a todos os amantes da Viradouro, com destaque para nossa Velha Guarda, fonte eterna do saber chamado samba!
Agradecimentos especiais a Oswaldo Areias (Presidente da Velha Guarda), Jorge Rosa (Regata), Sebastião Antunes Filho (Tião), e José Carlos dos Santos (Esticadinho).
Departamento Cultural da Viradouro - 24 de junho de 2011
Um pouco de nossa história

Ouça o samba-enredo do carnaval de 1985 - "Na terra de Antônio Maris, só não viu quem não quis" - (Vantoil, Aristides e Crioulo Doido)
Nota: Antônio Maris ou Marins, marido de Isabel velha, era dono da Capitania Hereditária onde surgiu a cidade de Niterói. Depois da invasão francesa no Rio de Janeiro, liderada por Villegaignon, as terras foram cedidas ao cacique Arariboia, que ajudou a expulsar os invasores, para que sua tribo começasse a povoar a região.

